Prof.Jorge Garcia – A arrogância mata

Jorge Garcia – 60 anos, engenheiro industrial com mestrado em Matemática, Ph.D em Inteligência Artificial e pós-doutorado em Estratégia Competitiva pela Harvad Business School. Criou a Coppead, escola de negócios da UFRJ, e hoje é professor do Ibmec e dono da consultoria The Monitor Company of Brazil.

Jorge Garcia – 60 anos, engenheiro industrial com mestrado em Matemática, Ph.D em Inteligência Artificial e pós-doutorado em Estratégia Competitiva pela Harvad Business School. Criou a Coppead, escola de negócios da UFRJ, e hoje é professor do Ibmec e dono da consultoria The Monitor Company of Brazil.

O engenheiro mexicano Jorge Garcia poderia ser chamado de médico-legista do mundo corporativo. Ele tornou-se um especialista em descobrir por que as empresas morrem. Professor e consultor empresarial naturalizado brasileiro, Garcia consegue fazer um diagnóstico precoce dos fatores que levam uma corporação à ruína. “A arrogância e a soberba matam uma empresa”, diz. Em breve, ele pretende fazer as malas e passar um ano na Harvad Business School, para pesquisar o tema mais a fundo. Garcia vai realizar um sonho antigo: escrever um livro sobre os maiores exemplos de insensatez no mundo dos negócios. A obra será inspirada no título A Marcha da Insensatez, da jornalista Bárbara Tuchman, que descreve os grandes equívocos da humanidade desde a Guerra de Tróia até o Vietnã. Na entrevista que concedeu a Época Negócios, o professor explica por que é diferente administrar uma empresa no Brasil, aponta quais organizações estão em risco atualmente e diz quais foram os maiores erros cometidos no mundo dos negócios.
Época: Por que uma empresa morre?
Porque é arrogante e soberba. O McDonald’s, por exemplo, está se arrebentando por isso. Chegou a ter 40% do mercado no mundo e hoje está com 13%. Por enquanto, pois a rede vai acabar. Nós temos aqui, no Brasil, uma quantidade enorme de franqueados querendo sair. E no começo tínhamos fila. Hoje nem fila há. Temos quase 20 franqueados brigando na Justiça contra o MacDonald’s. No mundo todo, as vendas estão caindo.
Época: Qual foi o grande erro?
Eles pensaram o seguinte: o manual tem de ser o mesmo em Nova York, no Brasil e na Índia. Só que eles se esqueceram de que as pessoas são diferentes. Em outras palavras, deram as costas para o mercado. Eles criaram uma universidade para fazer hambúrguer do mesmo jeito, da maneira mais rápida e eficiente, e no mundo todo. Foi um erro crasso. Essas escolas não dão espaço pra você pensar. O melhor funcionário é aquele que não pensa, é aquele que faz o que o chefe fala.
Época: Por que as empresas chegam a esse ponto?
Porque se acomodam. É como no casamento. O grande segredo é não relaxar. É o caso também da IBM, da Sony e da Xerox. Uma das coisas que o mundo dos negócios me ensinou é que o mercado é cruel, não tem a menor lealdade e, pior, não reconhece os sucessos do passado. É preciso estar sempre se reinventando.
Época: Como virar esse jogo?
Carlos Ghosn conseguiu fazer isso na Nissan. Ele chegou e viu que a diretoria toda estava compactuada, que levou 26 meses delirando antes de tomar uma decisão de fechar uma fábrica. Em vez de escutar a diretoria, Ghosn foi ouvir as lideranças básicas, o que muito empresário brasileiro deveria fazer. Ele foi à gerência intermediária e pegou os melhores talentos. Há muita gente boa asfixiada pela diretoria que nós atualmente temos.
Época: Qual é o problema das atuais diretorias?
São velhas, arcaicas. A crise nas empresas começa na crise executiva. O presidente, assim como a diretoria, conhece o problema há tempos, e não toma decisões por medo de perder o status quo.
Época: As empresas familiares não devem ter esse problema….
É verdade, mas são muito mais complicadas. Ou a família mata a empresa ou a empresa mata a família.
Época: Existem casos que contrariam esta regra?
O Grupo Votorantim, por exemplo, dá certo pela rigidez e disciplina dos donos. O filho de Antonio Ermírio de Moraes é um garoto que está indo à luta como outro qualquer. Se ele é aceito pelo sistema de recrutamento da Votorantim, ele poderá entrar na empresa. E ele entra pelos fundos, não pela janela. É a meritocracia. O Brasil está começando a importar este modismo cultural dos Estados Unidos, o que eu acho muito bom.
Época: Qual foi a maior insensatez do século XX?
Foi a Igreja Católica. É uma organização em que o presidente só sai no caixão. A Igreja vai morrer. Observe a idade das pessoas que vão à missa aos domingos. Ela perdeu mercado para as novas igrejas. A maior organização do mundo foi inflexível, rígida demais e não se renovou.
Época: Um dos temas que o senhor vai pesquisar em Harvad é estratégia em países emergentes. Por que é diferente administrar uma empresa no Brasil?
Nos países anglo-saxões, se você fala para o subordinado “faça isso”, ninguém questiona. No Brasil, vão fazer diferente. Se Hitler tivesse nascido aqui, estaria vendendo quadro no Viaduto do Chá, em São Paulo. Ninguém estaria fazendo continência.
Época: Isso é bom ou ruim?
A insubordinação é fantástica, mas desde que motivada. Sem conhecimento, pode levar ao caos. A motivação não é uma porta que se abre somente por dentro. Você precisa se incentivado a crescer, saber que vai ganhar alguma coisa com isso. Aquela história de uma empresa contratar uma pessoa por um salário, 12 salários, está morrendo. As empresas mais lucrativas agora têm quadros com salários-base baixos e o variável (o bônus) muito grande.
Época: Mas esse modelo não cria um ambiente extremamente competitivo?
Não necessariamente. Você tem de estudar de que forma as pessoas vão trabalhar de maneira saudável, o que não é fácil. Na maioria das vezes, o ambiente que se cria é de predadores. Quem não se adapta vai para a rua.
Época: O senhor diz que prefere viver um ano a 100km por hora a viver mais 10 anos a 5km por hora. Essa filosofia também funciona no mundo dos negócios?
Não. É suicida demais. Existe um ditado que diz que o melhor jeito de perder um negócio é perder uma oportunidade. Mas, ao mesmo tempo, oportunismo é suicídio. O mercado é contraditório. Cada onda é diferente.

 

Fonte:

Patrícia Cançado

Revista Època – nº 356 – 14/03/05

http://sitedoempreendedor.com.br/entrevistas.php?acao=exibir&id=53